Quadro de pintora portuguesa bate recorde em leilão
Um quadro da artista portuguesa Paula Rego foi vendido por 866 mil euros, num leilão realizado esta terça-feira (28/06), em Londres, batendo o recorde anteriormente alcançado por uma obra da artista em 2008. O quadro foi leiloado ao lado de obras de artistas como Andy Warhol e Francis Bacon.
A estimativa base da leiloeira Christie’s para “Looking Back”, de 1987, era de de 600 mil a 800 mil libras ( 675 mil a 900 mil euros). A licitação final foi de 769 250 libras (866 175 euros). O anterior recorde tinha sido registado em 2008 na leiloeira rival Sotheby’s, quando “Baying”, de 1994, foi arrematado por 558 mil libras (740 mil euros no câmbio da altura).
O valor do quadro vendido deve-se ao significado e importância da tela na vida e carreira da pintora portuguesa, que terminou a obra em 1987, ano em que foi mostrada pela primeira vez em Londres, na galeria Edward Totah.
O quadro é considerado um estudo ambíguo das relações entre mulheres, mostrando duas figuras femininas reclinadas sugestivamente sobre uma mesa, enquanto uma criança está ajoelhada no chão junto a um cão.
O catálogo do leilão destaca como esta obra, realizada um ano antes da morte do marido, o também pintor Victor Willing, personifica as emoções da artista numa altura em que este se encontrava muito doente. Uma interpretação possível da obra identifica a crescente dependência de Willing, representado pelo cão, em relação à criança a seu lado, representando Paula Rego, que até então vivera na sombra do artista inglês.
“Looking Back” foi exposto em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian e no Museu da Fundação Serralves, no Porto, em 1988, e no Centro Cultural de Belém, mais tarde, em 1997, ano em que Paula Rego teve uma retrospectiva no Museu Tate Britain em Liverpool.
Paula Rego iniciou seus estudos no Colégio Integrado Monte Maior, em Carcavelos, seguindo para a St. Julian’s School, onde os professores cedo lhe reconheceram o talento para a pintura. Partiu para Londres, onde estudou na Slade School of Fine Art, até 1956. Conheceu o pintor Victor Willing (1950-1999), com quem se casou em 1959. Entre 1959 e 1962 viveu na Ericeira. Numa ida a Londres, conheceu o pintor Jean Dubuffet (1901-1985), referência determinante na sua criação artística, usualmente definida como Arte bruta.
Ao longo da década de 1960 assina exposições colectivas em Inglaterra e, em 1966, entusiasma a crítica ao expôr individualmente, na Galeria de Arte Moderna da então Escola de Belas-Artes de Lisboa.
Na década de 1970, com a falência da empresa familiar, vende a quinta da Ericeira e radica-se em Londres. Torna-se bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian para fazer pesquisa sobre contos infantis, em 1975, e figura com onze obras na exposição Arte Portuguesa desde 1910 (1978), dominado pelas colagens. Volta à pintura, mais livre e mais directa, retratando o mundo intimista e infantil, inspirado em dados reais ou imaginários, com figuras de um teatro de crianças de Victor Willing (o macaco, o leão e o urso), interpretando as histórias que Paula inventa. A obra literária de George Orwell inspira-a no painel Muro dos Proles (1984), com mais de seis metros de comprimento, onde estabelece um paralelismo com as figuras de Hieronymus Bosch.
Dá uma virada radical na sua obra com a série da menina e do cão. A figura feminina assume claramente a liderança na acção, enquanto o cão é subjugado e acarinhado. A menina faz de mãe, de amiga, de enfermeira e de amante, num jogo de sedução e de dominação que continua em obras posteriores. Tecnicamente as figuras ganham volume, o espaço ganha solidez e autonomia, a perspectiva cenográfica está montada. Em 1987, Paula Rego assina com a galeria Marlborough Fine Art, o passo que faltava para a divulgação internacional.A morte do seu marido, também nesse ano, é assinalada em obras como O Cadete e a Irmã, A Partida, A Família ou A Dança, de 1988. A convite da National Gallery, em 1990, vai ocupar um ateliê no museu e pintar várias obras inspiradas na coleção. Desse período destaca-se Tempo – Passado e Presente (1990-1991).
Em 1994, realiza a série de pinturas a pastel intitulada Mulher Cão, que marca o início de um novo ciclo de mulheres simbólicas. Impõe a sua consciência cívica em Aborto (1997-1999), numa crítica ao resultado do primeiro referendo a essa matéria, realizado em Portugal em 1997.
Das distinções que recebeu, salienta o Prémio Celpa/Vieira da Silva de Consagração e o Grande Prémio Soquil.
Em Junho de 2010 recebeu da Rainha Isabel II a Ordem do Império Britânico com o grau Dama Oficial, pela sua contribuição para as artes. A par de Maria Helena Vieira da Silva, Paula Rego é a pintora portuguesa mais aclamada a nível internacional, estando colocada entre os quatro maiores pintores vivos em Inglaterra.
