Jovens vão às ruas em Portugal para protestar
Mais de 180 mil portugueses participaram neste sábado de duas manifestações simultâneas ocorridas na capital do país, Lisboa, e no Porto.
Nas duas cidades, os protestos tinham como palavra de ordem o fim da precariedade no emprego do país, incluindo emprego informal, os estágios não remunerados e os chamados falsos autônomos, que não têm direito a férias nem a 13º terceiro salário.
Segundo os organizadores da marcha, o movimento é inspirado na Revolução de Jasmim, na Tunísia, que culminaram com a saída do presidente e influenciaram protestos em outros países da região, como Egito e Líbia.
O movimento começou com quatro jovens de Lisboa, que em 9 de fevereiro resolveram criar uma página no Facebook convocando a manifestação, dizendo que eram uma “geração à rasca” (geração na pior, em Portugal). A notícia se espalhou na internet e na sexta-feira havia mais de 50 mil pessoas que indicaram no Facebook que iriam comparecer.
No discurso do final da manifestação, os organizadores falaram sobre os objetivos: “Estamos aqui para uma mudança qualitativa do país. Desperdiçam-se as aspirações de toda uma geração. Desperdiçam-se recursos e competência. Somos a geração com maior nível de formação na história do país. Acreditamos que temos os recursos e ferramentas para dar um futuro melhor para o país”, afirmou Paula Gil.
‘Apartidário’
A marcha não estava atrelada a dos partidos políticos. Na manifestação os quatro gritavam: “Apartidário, laico, pacífico”, seguidos por milhares de pessoas.
Ao contrário das manifestações enquadradas por sindicatos e partidos, os manifestantes protestavam cada um à sua maneira. Na marcha de Lisboa, por exemplo, algumas pessoas foram de bicicleta e outras levaram seus cães para as ruas.
E a multidão era acompanhada de um banda de metais e, a 100 metros, um grupo tocando gaitas de fole acompanhadas por bumbos – típica música de origem celta do norte de Portugal.
A pedido da organização, cada pessoa levava seu próprio cartaz. Havia desde mensagens políticas tradicionais, como “Precariedade não escolhe idade”, mais elaborados, como “Quem governa o governo? Quem elegeu os mercados?”, até inusitados, como “Melhores condições, mais empreendedorismo”, “Outsourcing não reduz custos” ou “Com licenciatura, com mestrado, com namorado – sem emprego, sem casamento, sem futuro”.
Em vez de um cartaz, a publicitária Raquel Nanhiça, de 29 anos, usava uma moldura de quadro em frente da face. “Trabalho há cinco anos e nunca tive um contrato de trabalho”.
Sem 13º
Levando uma imagem ampliada de um recibo verde – nome do recibo padronizado para o trabalho autônomo em Portugal – o arquiteto paisagista Henrique Oliveira contou a sua situação: Estou há 11 anos trabalhando como precário, nunca recebi 13º salário e as férias são sempre por minha conta”.
Ao seu lado, o engenheiro Antônio Ratão falou por que foi para a manifestação: “Perdi o emprego na quinta-feira. Foi por extinção do posto de trabalho, porque a empresa não recebia dos seus clientes. Já respondi a 16 anúncios enviando currículos”, dizia, sem muita esperança.
Mesmo com emprego estável, a escriturária Rosa Pereira fez questão de participar: “É necessário alterar o sistema político. Estamos fartos. Estou aqui para deixar um futuro melhor para meus filhos.”
Pessoas ligadas a partidos e organizações políticas também participaram da manifestação. Os partidos de esquerda entraram sem levar suas bandeiras. Os anarquistas carregavam bandeiras pretas.
Já o Partido Animal – que defende os direitos dos animais – desfilou com cartazes e bandeiras próprias. A extrema direita era reconhecível pelos cabelos raspados e pelas tatuagens de motivos celtas e suásticas.
